Terça-feira, Julho 14, 2009

VENTO poema de Vitor Cintra




VENTO


Que, em brisa suave,
Acaricias o nosso amor,
Quando um dia,
Irmão de mágoas,
Aqui voltares,
Lembra-te
Que aqui nos viste
Amar
E murmurar juras eternas,
E, vento,
Se ela as quebrar,
Solta então a tua fúria
Para que o eco,
O cheiro,
E o sabor,
Deste amor,
Se dispersem pelo infinito
E ela sinta,
Que aqui,
De mim,
Nada restou.


VITOR CINTRA

do livro " Pedaços do Meu Sentir "

Domingo, Julho 12, 2009

MEMÓRIA

MEMÓRIA

Vimos de tempos distantes
Doutro viver, doutras eras
Feitas de sonho e quimeras,
Onde já fomos amantes.
Redescobrir um momento,
Traz-nos surpresa e alento.
.
Ao relembrar cada um
Desses encontros perdidos,
Sobre o prazer dos sentidos
Temos memória comum,
Feita num outro passado,
Que se viveu lado a lado.

VÍTOR CINTRA
do livro "Pedaços do Meu Sentir"

Sábado, Julho 04, 2009

Duendes


DUENDES

Andam duendes à solta
Nalguns caminhos 'scondidos,
Só quem apura os sentidos
Pode senti-los à volta.

Ouvem, alguns, gargalhadas,
Outros só ouvem gemidos,
Nesses atalhos seguidos
Em noites mais estreladas.

É nesse mundo risonho,
Sem um temor desmedido,
Que cause dor, ou revolta,

Que, quem viveu um tal sonho,
Se mostra mais convencido
Que andam duentes à solta.

Vítor Cintra
do livro: Pedaços do Meu Sentir

Sábado, Junho 27, 2009

RELATOS


.
Guardam os povos memória
De grandes feitos vividos;
São os percursos da História,
Que os homens hão percorrido.
.
Quantas histórias de enredos,
Com personagens reais,
Não nos relatam segredos
Feitos paixões imortais?!
.
Sobram relatos de horror,
De violências, batalhas,
De guerras feitas ao calhas.
.
Faltam relatos de amor,
De vidas sãs, alegria,
Vividas em poesia.
.
VITOR CINTRA
Do livro "PEDAÇOS DO MEU SENTIR"

Sábado, Junho 13, 2009

RISCOS




Enquanto olho no tempo a minha vida
Preservo, com saudade, na lembrança,
Irmã, os nossos tempos de criança,
Deixados na distância percorrida.

A vida toma rumos imprevistos,
Difíceis de sonhar na juventude,
Mas tem, por isso mesmo, mais virtude
Saber vivê-la bem, vencendo riscos.

Aqueles que corri, e foram tantos,
Alguns co' o coração lavado em prantos,
Por força do fervor e da vontade.

Marcaram dalgum modo o meu destino,
Distante dos meus sonhos de menino,
Mas feitos na vivência da verdade.



VITOR CINTRA
do livro " RELANCES "

Terça-feira, Junho 09, 2009

SENSATEZ




Pensa, como o sábio pensa,
Fala, como o simples fala,
Cala, como o mudo cala,
Ama, com paixão intensa.

Vive, como ao ser criança,
Reza, como crente reza,
Julga com maior certeza,
Olha, com olha de esp'rança.

Porque quem sempre assim fez
Agiu com mais sensatez.


VITOR CINTRA
do livro " Murmúrios "

Terça-feira, Junho 02, 2009

TRIGUEIRA




O sol que, no deserto, te queimou,
Pintando a tua tez co'o seu matiz
Vestiu-te o seu sorriso mais feliz
E nunca, nunca mais, se retirou.

O brilho de azeviche, que ficou
Nos teus cabelos, negros de raiz,
Tem algo de mistério, que se diz,
Ter sido a perdição de quem te amou.

Escravo dum fascínio que não quis
Morrer, nem quando a vida te afastou,
Errante, pelo mundo, se arrastou

E nessa busca, infinda e infeliz,
Impôs-se, a cada esquina que dobrou,
Achar-te e todo o amor que o encantou.


VITOR CINTRA
do livro " Murmúrios "

Quinta-feira, Maio 28, 2009

CHEIRO





Teu corpo, poema ardente.
Frenética rima de ais,
Aurora, pedindo mais,
Com louco vigor, fremente.

Teu rosto, sorriso aberto,
Promessa, sonho, desejo,
Tornando-se a cada beijo
Tão quente, quanto tão certo.

E o dia feito uma hora,
Por entre os ais e os gemidos,
Festim, sem par, dos sentidos.

Mas, quando te vais embora,
Só fica o teu cheiro, intenso,
Enchendo o vazio imenso



VITOR CINTRA

Do novo livro " PEDAÇOS DO MEU SENTIR "



À venda nas livrarias, consulte:
  • Editora Temas Originais
  • Terça-feira, Maio 26, 2009

    LOUCOS




    Não são muitos, nem são poucos,
    Os poetas, bem seguros,
    Encerrados entre muros
    Sob o rótulo de loucos.

    São apenas os bastantes
    P'ra provar que a poesia
    É temida, e não devia,
    Tanto ou mais do que era dantes.

    Porque abordam quaisquer temas,
    Nas estrofes dos poemas,
    Incomodam co'as verdades.

    É por isso que os poetas
    São, por formas indirectas,
    Reprimidos entre grades.

    VITOR CINTRA
    do livro " RELANCES "

    Domingo, Maio 17, 2009

    SINTO poema de VITOR CINTRA




    Sinto crescer a vontade
    De perceber se o que dizes,
    Entre risadas felizes,
    É ou não é a verdade,
    Ou só disfarça deslizes.


    Sinto crescer o desejo
    De te cingir nos meus braços,
    P'ra te prender com abraços,
    E arrancar-te num beijo
    Todos os teus embraraços.


    Sinto crescer a ideia
    De que, bem mais do que mostras,
    São bem reais as propostas
    Duma visão que incendeia
    Esse viver, de que gostas.



    VITOR CINTRA
    Do Livro " Pedaços do Meu Sentir"
    Á venda nas livrarias

    Quarta-feira, Abril 15, 2009

    PEDAÇOS DO MEU SENTIR





    No próximo dia 16 de Maio, às 19,00 horas, no Auditório - Campo Grande nº 56, em Lisboa - será a apresentação deste novo livro de poemas, publicado sob a chancela da editora «Temas Originais, Lda».
    O livro, em cuja capa se reproduz uma tela da pintora Alvani Borges, tem Prefácio do poeta António Paiva e será apresentado pelo poeta Xavier Zarco.


    Sexta-feira, Abril 10, 2009

    QUADRAS




    Parte de nós chama o céu,
    A outra vive o inferno;
    Cobre-se a vida co'um véu
    Amargo por ser eterno.

    O homem tem dois encontros,
    O nascimento e a morte,
    Quando p'ra eles 'stá pronto,
    Pouco mais há que lhe importe.

    É cada terra um cadinho
    Onde há virtude e defeitos,
    Quer no Algarve ou no Minho
    Tem cada qual seus preceitos.

    Há, nos Açores, nove ilhas,
    Apenas uma é recreio;
    Em todas há maravilhas,
    E mais vulcões que receio.


    VITOR CINTRA

    do livro " À Distância "

    Sexta-feira, Abril 03, 2009

    MOIRA




    Olhar de espanto
    Na madrugada,
    Vê, num recanto
    Da serra amada,
    Sair do manto,
    Moira encantada.

    Ao som dum canto,
    Vindo do nada,
    Dança, num pranto
    De condenada.
    Visão de encanto,
    Enluarada.



    VITOR CINTRA
    do livro " À Distância "

    Domingo, Março 29, 2009

    IMATURIDADE



    Tens cabeça de gaiata
    Nesse corpo de mulher,
    Quem a vida desbarata
    Terá muito que sofrer.

    Quem andar na vida "airada"
    A pensar que está seguro,
    No final vê-se sem nada;
    Sem presente nem futuro.

    P'ra que tal não aconteça
    É preciso ter presente
    - Assim é com toda a gente -

    Que, na vida que começa,
    Pode haver muita promessa,
    Mas no fim tudo é di'frente.


    VITOR CINTRA
    do livro " RECADOS "

    Sexta-feira, Março 27, 2009

    MARCAS




    Revestem-se de mágica teus sonhos,
    Na ânsia de apagar a realidade
    E pôr bastante longe a fealdade
    E a dor, de tantos dias tão tristonhos.

    Arredam-se da mente, nessa ânsia,
    As mágoas dos abusos, tão sofridos,
    Sevícias e queixumes, doloridos,
    Que marcam. de tristeza, a tua infância.

    Ás mãos, e por vontade, do adulto,
    Que tinha obrigação de te cuidar,
    Perdeste a inocência de criança,

    E as marcas, no teu corpo, do insulto,
    Que nem sequer o tempo há-de apagar,
    São tudo o que te resta por lembrança.


    VITOR CINTRA
    do livro " à Distância "

    Domingo, Março 22, 2009

    RESTOU-ME



    Restou-me, doutros tempos, o sentido
    Que faz acreditar que a realidade
    Encontra sempre um fundo de verdade,
    Naquilo que se diz p'ra ser ouvido

    Restou-me, doutras vidas, o cuidado
    De nunca crer em tudo o que se diz,
    Buscando, desses ditos, a raiz
    P'ra não julgar ninguém, de modo errado.

    Do tempo, que se escoa agora, apenas
    Se deve acreditar que a humanidade
    Se não afundará na insanidade;

    E crer que as coisas grandes, e as pequenas,
    Embora muitas vezes não pareça,
    Farão valer que a vida se mereça.


    VITOR CINTRA
    do livro " À Distância "

    Quarta-feira, Março 11, 2009

    MUSA




    Nascida, já sem tempo, a minha musa,
    Á força d' inspirar outros poetas,
    Usando linguagem mais confusa,
    Lançou-me algumas rimas incorrectas.

    Não fora ter prazer em versejar
    Aquilo que me toca, dia a dia,
    Jamais arriscaria rabiscar
    Os versos, a que chamo poesia.

    Mas, notas duma vida já cansada,
    Que fez na solidão o seu percurso,
    Com muito de tristeza misturada,
    .
    Não quero ver cair no esquecimento,
    Por força de carência de recurso,
    O muito que me vai no pensamento.


    VITOR CINTRA
    do livro " Murmúrios "

    Quinta-feira, Março 05, 2009

    * EU VI * poema de Vitor Cintra









    Eu vi passar o tempo, sempre á 'spera
    Que a sorte bafejasse o meu país
    E que, vencido o medo de Quimera,
    Fortuna fosse mais do que se diz.


    Eu vi passar os anos de revolta,
    Por todas as partidas de Destino,
    Sabendo de há um tempo, que não volta,
    No Fado, que abracei desde menino.


    Eu vi as muitas Moiras, que se cruzam
    No palco desta terra lusitana,
    Querendo proteger a massa humana;


    Mas vi, também, as Parcas, que nos usam,
    Tentando demonstrar quanto é errado
    Um povo destemido ser honrado.



    Vitor Cintra

    Do livro " Ao Acaso "

    Terça-feira, Março 03, 2009

    AMUOS



    Com motivo - ou talvez não-
    Por capricho, uma mulher
    Prende o burro quando quer.

    Não está na nossa mão
    Encontrar a solução
    P'ra que tal não aconteça.
    Muito embora não pareça,
    Quando a ela lhe convém
    Desamarra. E tudo bem!


    Como se não fosse nada
    Faz-nos crer, dessa maneira,
    Que findou a baboseira.
    Mas a birra sem sentido
    - Artifício pretendido -
    Foi apenas adiada.
    Porque não foi terminada,
    Quando for conveniente
    Volta à liça, novamente.
    Repetida cada vez
    Que tal possa ser motivo
    P'ra dar força ao que ela fez.

    Um só modo há, de fazer
    Para não enlouquecer.
    É armar em vingativo!
    E, dum modo compulsivo,
    Não deixar desamarrar,
    Quando a birra lhe passar.

    Não ceder a qualquer choro,
    A repente, desaforo,
    Ou chilique. Ter presença.

    Que a um dia de nirvana
    Corresponda uma semana
    Repleta de indiferença.
    Na recusa da sentença
    Há que ser mais resoluto.
    Se não muda ... dar-lhe o " chuto ".
    VITOR CINTRA
    do livro " Mumúrios "

    Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

    CHAMADA






    CHAMADA


    Sinto minha alma afobada
    Por trilhas, cheias de nós,
    Sem perceber a chamada
    Feita, por almas tão sós
    Como a minha alma isolada.

    Solto as amarras do tempo
    E o pensamento, veloz,
    Corre ao sabor do momento,
    Quando o momento dá voz
    Ao meu veloz pensamento.


    VITOR CINTRA

    Do livro " Murmúrios "

    Sábado, Fevereiro 07, 2009

    COMPORTAMENTO



    Dominada p'la luxúria
    Encobriste, na lamúria,
    O pecado do adultério,
    Esquecida das promessas,
    No viver, feito às avessas,
    Uma vida sem critério.

    Como fruto, indesejado,
    Surge, filha do pecado,
    Uma vida, sem defesa;
    Mas matar o inocente,
    Que tem dentro do teu ventre,
    É ir contra a natureza.

    Bem merece mais respeito
    A mulher que, por seu jeito,
    É chamada de perdida,


    Do que a que se diz honesta,
    Pondo capa de modesta,
    Mas que ao filho tira a vida.


    VITOR CINTRA
    do livro " Múrmúrios "

    Sábado, Janeiro 31, 2009

    TROCADO




    Aqui, na densa mata de bambu,
    Tentando recobrar o meu alento,
    Ouvindo fui - silêncio bem atento -
    O som da voz do sonho, que eras tu.

    Palavras de carinho, ou de conforto,
    Nascidas do meu subconsciente,
    Soando, repetidas, no presente,
    Saídas dum passado mais que morto.

    Lançado, p'lo destino, numa guerra
    Que, jovem, me afastou da minha terra,
    Lembrando as muitas juras, que te ouvi,
    .
    Não deixo de sentir que fui trocado
    - Brinquedo dum desejo inconfessado -
    Por outro, que ficou perto de ti.


    VITOR CINTRA
    do Livro " Murmúrios "

    Sábado, Janeiro 24, 2009

    MIRAGENS



    Nascem, quais folhas ao vento,
    Asas sem corpo, planando,
    Águas sem rio, sobrando,
    Mentes sem vida, vibrando,
    Rostos sem dor, em tormento.

    Crescem, já mudas de alento,
    Sem ter em conta a idade
    Perdem-se da mocidade,
    Olhos no mar, com saudade,
    Rastos de azul no cinzento.


    VITOR CINTRA
    do Livro " Murmúrios "

    Sábado, Janeiro 17, 2009

    MOSTROU-TE



    Mostrou-te a vida um sorriso
    Quando soubeste entender
    Que vale a pena viver
    Com pouco, além do preciso.
    .
    Mostrou-te a vida a beleza
    Das coisas simples do mundo,
    Cujo sentido é profundo
    Dentro da mãe natureza.

    Mostrou-te a vida a ternura
    Que sempre se faz sentir
    Olhando a rosa a florir;

    Mostrou-te toda a candura
    Que surge, feita bonança,
    Nos olhos duma criança.

    VITOR CINTRA
    do livro " Murmúrios "


    Terça-feira, Janeiro 13, 2009

    IMAGEM



    Quem não preserva seus dotes
    P'ra usos com fim capaz,
    Sujeita-se a pôr garrotes
    Em tudo o que mais lhe apraz.

    Quem troca a sua virtude
    Por mero, fugaz prazer,
    Arrisca a sua saúde
    E deita tudo a perder.

    Há quem pense que não paga
    Abusos, libertinagem,
    Por gozo de um só momento,

    Mas, quando o fogo se apaga,
    Queimada resta a imagem,
    Sem brilho, ou qualquer alento.


    VITOR CINTRA
    do livro " RECADOS "


    Domingo, Janeiro 11, 2009

    MEU PAI



    Deixei irmãos, deixei Mãe,
    Deixei a casa. Parti.
    Deixando meu Pai também.
    E fi-lo por crer em ti.

    Apostei nessa aventura
    Paz, amor, tranquilidade.
    Num assomo de loucura
    Apostei a mocidade.

    Mais tarde, sem amargura,
    No regresso ao meu passado,
    Senti, de meu pai, ternura.

    Apesar de magoado,
    Num gesto de alma, murmura
    O perdão do meu pecado.

    VITOR CINTRA
    do livro " Dispersos "

    Sábado, Janeiro 03, 2009

    ABRAÇO



    Nos braços do teu abraço,
    Sem peias, nem embaraço,
    Descanso, no meu cansaço,
    As ânsias do coração.

    Desfaço tudo o que faço
    Do sonho, quando te enlaço,
    Ou deito no teu regaço
    Tristezas da solidão.

    Mas passo, e depois repasso,
    O rumo que cada passo
    Impondo vai, neste laço.
    E cresce a exaltação.


    VITOR CINTRA
    do livro " Murmúrios "

    Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

    EXISTES




    Nasces do ventre dum sonho
    Feita quimera, encantada,
    Como magia, tornada
    Fruto da luz, que em ti ponho.
    Suponho!

    Cresces sorriso, com graça
    Feita carinho, ternura,
    Com a brilhante candura
    Que vem do sol, que te abraça.
    Se passa.


    Vives beleza, esplendor
    Feito alegria, bom senso,
    Como farol, dom imenso.
    Feito de paz e de amor.
    Fervor!


    VITOR CINTRA
    do livro " Murmúrios "

    Sábado, Dezembro 27, 2008

    RECORDAR



    Tentei lembrar-me do tempo
    Em que eras feliz um pouco,
    Cabelos soltos ao vento,
    Na face um sorriso louco.

    Sem nada levado a sério,
    Nos olhos teus, a ternura
    Não tinha qualquer mistério,
    Sonhava com aventura.

    Aberto fora o caminho
    Trilhado na vida então,
    Por ordem do coração;

    Lembranças do teu carinho...
    Nem grandes são, nem pequenas...
    Sao só lembranças, apenas.


    VITOR CINTRA
    do livro " Recados "

    Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

    AMOR ERRADO



    AMOR ERRADO

    Amor por compaixão não é amor,
    É dar, mas duma forma adulterada,
    Um pouco, muito pouco, de calor
    A quem não pode, nunca, dar-vos nada.

    Podeis dizer, senhora, que não há,
    Na vossa doação, um sacrificio,
    Mas muito do que dais demonstra já
    Que, de paixão, não há, sequer indício.

    Amor, não é um acto que se faça,
    Mas sim um sentimento, que se tem,
    Que faz o coração sentir-se bem.

    E se a compreensão vos ultrapassa,
    Ao ponto de calar a própria vida,
    Ireis ficar sózinha, de seguida.

    VITOR CINTRA
    do livro " Recados "

    Sexta-feira, Dezembro 19, 2008

    PAIXÃO



    No fogo da paixão, que te consome,
    Enorme labareda de prazer
    Crepita, cada vez que se ouve o nome,
    Que é nome de cidade e de mulher.

    As almas não resistem aos apelos,
    Que pintam as paixões do coração
    Em tons de cor de rosa, sempre belos,
    E tornam todo o mundo uma emoção.

    Mas, tal como em ciência, diz quem sabe,
    Ninguém demonstra ter um sentimento
    Se dele não tiver conhecimento.

    Não deixes que a paixão, em ti,se acabe,
    Mas crê que, se for mal direccionada,
    Então essa paixão não vale nada.

    VITOR CINTRA
    do livro " Recados "






    Sábado, Dezembro 13, 2008

    GRAÇAS




    Amo deveras meus filhos,
    Co'uma paixão compulsiva,
    Não foram nunca cadilhos
    Mas minha essência, bem viva.

    Quis o destino, também,
    Fazer de mim protector
    De outros, com pai e mãe,
    Contudo órfãos, de amor.


    Hoje dou graças a Deus
    Por ter-me dado o vigor,
    Que fez dos meus, e dos teus,
    Gente de bem, com valor.


    VITOR CINTRA
    do livro " Murmúrios "

    Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

    NOITE




    Forram-se as noites de Inverno
    De chuvas, neves e frio,
    E num fragor, quase eterno,
    Rugem as águas do rio.

    Atrás da porta, fechada,
    Uma voz doce, que canta,
    Mima a criança ensonada,
    Que, a custo, espera pela janta.

    E porque a noite é cerrada,
    Escura noite de breu,
    Sem uma estrela no céu,

    Não há nem alma penada,
    Que arrisque mostrar ao vento
    A força do seu alento.

    VITOR CINTRA

    Quarta-feira, Novembro 26, 2008

    OLHOS TRISTES




    Olhos tão tristes, senhora,
    Os vossos. Tristes de mais,
    Olhos de dor, de quem chora.
    Senhora, porque chorais?

    Se essa tristeza, que mora
    Nos olhos, nos dá sinais
    Da mágoa, que vos devora
    E, a medo, mal disfarçais,

    Mostrai-nos então, se agora,
    Dos olhos, porque me olhais,
    Se vai a tristeza embora,
    Ou quedam tristes, iguais.


    VITOR CINTRA
    do livro " MURMÚRIOS "

    Domingo, Novembro 09, 2008

    NÓS



    P'ra todos nós o segredo
    Duma vivência serena,
    Vem da mão dada co'o medo,
    Que torna a vida pequena,
    Atroz.

    Quantos de nós fomos reis
    Duma utopia sem par?
    Quantos ditámos as leis
    Num reino de imaginar? ...
    Sem voz! ...


    Quantos de nós fomos pajens
    Dalgum senhor que há nos sonhos?
    Quantos fizemos viagens
    Rasgando mundos medonhos? ...
    Mas sós ! ...


    Quantos de nós, por desejo
    De desvendar o mistério,
    Fomos perdendo o ensejo
    De ver aquilo que é sério,
    Em nós?...



    VITOR CINTRA
    do livro " Murmúrios "

    Sábado, Outubro 04, 2008

    * HOMEM BOM *


    HOMEM BOM

    Meu Pai, quantas saudades me consomem,
    Depois que me casei e tornei homem,
    Deitando ao tempo a vida de rapaz,
    Das horas que passei sós contigo,
    Meu mestre, conselheiro e bom amigo,
    Pois nelas fui feliz e tive paz.

    Do tempo em que, na minha meninice,
    Sabias, mesmo sem que te pedisse
    O quanto desejava ouvir 'ma' h'stória;
    E cada qual, tornada uma lição,
    Ouvida com respeito e atenção,
    Guardei, gravada a ouro, na memória.


    Foi teu um coração, maior que o mundo,
    Que soube alimentar, cada segundo,
    Com gestos de maior simplicidade.
    Viver assim a vida foi um Dom,
    Possível porque foste um Homem Bom,
    Amigo, que recordo com saudade.


    VITOR CINTRA
    do livro " Momentos "

    Sexta-feira, Setembro 26, 2008

    * PERDIDO *



    PERDIDO

    Sem eira, nem beira!
    Sem norte,
    Sem rumo.
    Numa caminhada
    Sem norte e aprumo,
    Nem pressas,
    Nem meças.
    E, queira ou não queira,
    Co' a vida às avessas.
    Com tudo e sem nada!


    VITOR CINTRA
    do livro " Momentos "

    Sexta-feira, Setembro 19, 2008

    * SONHO *



    SONHO

    Chegaste ...
    de repente e sem aviso !
    O delírio, num sorriso,
    chamando.
    Corpo e alma e tudo em mim
    vibrando,
    no vislumbre do ensejo,
    numa ânsia, num desejo,
    de ti.
    Ilusão que me sorri!
    Contraste
    doutros dias, maus, sem fim.


    VITOR CINTRA
    do livro" Momentos "

    Sexta-feira, Setembro 12, 2008

    * MENINA TRISTE *





    MENINA TRISTE



    Menina triste, que pensas
    Nos dias de solidão,
    Chamando tantas presenças,
    Tristezas, sonhos e crenças
    À tua imaginação?



    Menina triste, que esperas
    Nas noites de solidão?
    Teus sonhos vivem quimeras
    Do tempo em que ainda eras
    Menina de coração.

    Menina triste, quem chora
    Por causa da solidão,
    De certo que não ignora
    Que o mundo, que vê lá fora,
    Fervilha num turbilhão.



    Vitor Cintra
    do livro " Momentos "

    Domingo, Setembro 07, 2008

    CHAMA






    CHAMA

    Cada vez que se transporta
    O fulgor dentro do peito
    Pouco mais já nos importa,
    Para além do que comporta
    De virtude, ou de defeito.



    Sempre que essa chama cresce,
    Muito pouco só que seja,
    Sentimento bom floresce,
    Resistindo a qualquer teste,
    De má língua, ou mesmo inveja.



    Com fé cega, mas sem jeito
    De mudar, seja o que for,
    Tudo se acha ser perfeito
    E, em razão de causa-efeito,
    Se verá crescer amor.



    Vítor Cintra
    do livro " MOMENTOS "

    Domingo, Abril 06, 2008

    INFIDELIDADE



    INFIDELIDADE

    Intensas relações te consumiram,
    Negando o tão sagrado juramento.
    Fiel?! ... Só aos caprichos que te viram
    Instável, egoísta, cata vento.
    Despidos os princípios e valores,
    Errante no prazer dos teus amores,
    Liquidas, insensível, teus pudores.
    Imperam os sentidos nos favores.
    Desprezas, na luxúria do momento,
    Aqueles que os impulsos não seguiram,
    Deixando que a razão e sentimento,
    Esgotem, sem sentido, o que sentiram.

    VITOR CINTRA
    do livro " Relances "


    Terça-feira, Março 18, 2008

    FÚRIA



    FÚRIA

    Do céu, enquanto raios de desgraça
    Lampejam, com furor, na noite escura,
    As nuvens, que nasceram ameaça,
    Derramam-se em torrentes de água pura.

    Ressoa, com fragor, por toda a parte,
    A voz tonitruante de Vulcano,
    Mais forte que a irada voz de Marte,
    Capaz d'intimidar qualquer humano.

    O vento que fustiga em desespero
    As copas dos coqueiros desgrenhados,
    Mergulha de rochedos escarpados;

    Num silvo, que enfurece o mar servero,
    Encontra, no rugir da profundeza,
    Mais eco do que tem na natureza.


    VITOR CINTRA
    do livro " Relances "


    Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

    ECOS




    ECOS

    Ecos dum tempo distante,
    Que se findou num momento,
    E, por ter sido tormento,
    Se recorda a cada instante.

    Ecos dum tempo passado,
    Mas que se tem tão presente,
    Porque um viver imprudente
    Fez que ficasse lembrado.

    Ecos de vida, que à toa,
    Não sendo má, não foi boa,
    Num mundo feito de becos;

    E que não tendo saída,
    Nem curta foi, nem comprida,
    Mas que deixou tantos ecos.


    VITOR CINTRA
    do livro " Relances "










    Segunda-feira, Fevereiro 04, 2008

    DESPIQUE





    DESPIQUE



    Vejo nas lágrimas, medos
    - Quantos profundos demais -
    Onde se escondem segredos
    De corações desleais.


    Há, no silêncio, tormentos
    Duma amizade perdida
    Onde quaisquer sentimentos
    Murcham, sem verem saída.


    Contam-se as vidas em anos,
    Horas, minutos, segundos,
    Mágoas, ou só desenganos,
    Contam-se em perdas de mundos.


    Tem cada qual duas faces,
    Mas não há duas iguais,
    Por onde quer que tu passes
    Hás-de ter sempre rivais.



    VITOR CINTRA

    "Murmúrios "

    Domingo, Janeiro 27, 2008

    RETROSPECTIVA








    RETROSPECTIVA



    Cansado da vida,
    Perdido no tempo,
    A alma rendida,
    Sem encantamento;
    A força perdida
    Por esgotamento,
    A mente vencida
    Pelo sofrimento.
    Saudade chorada
    Co'a voz embargada,
    A sorte jogada
    Num mundo sem nada.
    Nos anos passados,
    Sem eira nem beira,
    Os dias marcados
    Por muita cegueira;
    Os tempos trocados
    Por ventos de feira;
    Destinos cruzados
    De qualquer maneira.
    Refeito o caminho,
    Seguido sozinho,
    Recorda-se o ninho
    Com muito carinho.
    Rescaldos de dor
    Das mágoas sofridas;
    Afagos de amor
    Das paixões vividas;
    Amargo sabor
    Das horas perdidas;
    Restando o fervor
    Das preces sentidas...





    VITOR CINTRA
    do livro " ECOS "

    Quinta-feira, Janeiro 17, 2008

    * É TRISTE *






    É TRISTE



    É triste ver ruir uma amizade,

    Por falta de lisura no fazer,

    Pois, mesmo quando há necessidade,

    Não pode ver-se ganho em se perder.


    É triste, por tão pouco, ver distantes,

    Por força de egoísmo, sem sentido,

    Amigos que, de há muitos anos antes,

    Se tinham de amizade conduzido.


    Que frágil se revela um sentimento

    Que aceita desfazer-se, num momento,

    Num gesto de desprezo, desleal


    E actos, repetidos, de desfeita

    Que, quando uma amizade se respeita,

    Não pode, um só, tomar-se por normal.



    VITOR CINTRA


    "Murmúrios "

    Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

    DESTINO




    DESTINO


    Eram estas e aquelas,
    Umas feias, outras belas,
    Á conquista deste mundo;
    Procurando o prazer delas
    Não pensavam nas sequelas,
    Nem paravam um segundo.


    Ao chamar-lhe preconceito
    - Que venceram, por dar jeito
    Ao viver de libertinas , -
    Desdenharam por despeito,
    Dos princípios do respeito,
    Que aprenderam em meninas.


    Como gatas tendo cio
    Qualquer macho lhes serviu
    Nessa saga de prazer;
    Mas, do tempo que fugiu,
    Restou só um leito frio
    E a tristeza a condizer.


    Já perdidos os encantos,
    Sós no mundo, com seus prantos,
    Olhar triste, sempre errante,
    Lembram homens - foram tantos,
    Possuídos pelos cantos, -
    Doutro tempo, já distante.



    VITOR CINTRA
    do livro " Relances "




    Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

    RESPEITO



    RESPEITO

    Pelas beiras dos caminhos
    Sabe Deus quantos velhinhos
    Andarão neste Natal,
    Sem que o mundo à sua frente
    Lhes prometa que o presente
    Não será sempre o normal.

    Quando o hoje é semelhante
    Ao passado, já distante,
    Como o ontem foi igual,
    O futuro não existe
    Num presente, que é tão triste,
    Sem prever melhor final.

    O saber de muitos povos
    Determina que os mais novos
    Reconheçam no idoso,
    Na velhice, ter direito
    A viver com mais respeito
    E uns anos de repouso.

    Mas serão tão atrasados
    Esses povos, apontados
    Como gente mais selvagem?...
    Ou será que o ocidente,
    Se tornou tão indif'rente,
    Que resusa aprendizagem? ...


    VITOR CINTRA
    " Relances "

    Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

    CONTRADIÇÃO




    CONTRADIÇÃO


    A distância que separa
    A certeza do incerto,
    Por não ser grande, nem rara,
    Faz o longe ficar perto.


    Se quisermos ver direito,
    Quando a vida corre mal,
    Descobrimos que um defeito
    Até pode ser normal.



    Assim sendo, quem procura,
    Por impulso da razão,
    Encontrar contradição.


    No defeito que perdura,
    Achará, com desconcerto,
    Que o errado é que está certo.




    VITOR CINTRA

    do livro " Ecos "

    Sábado, Dezembro 08, 2007

    MULHER



    MULHER

    De cada mulher se diz
    Que pode ser mal e bem;
    Mesmo a pior meretriz
    Pode ser a melhor mãe.

    Num dia nasceu pecado,
    Num outro, santa na dor,
    Profana agora o sagrado
    Mas logo sagra o amor.

    Institivamente esperta,
    É raramente modesta,
    Com dois "piropos" se enleva.

    É assim com cada uma,
    Não há dif'rença nenhuma
    Desde os tempos da mãe Eva.


    VITOR CINTRA
    do livro " ECOS "

    Segunda-feira, Novembro 26, 2007

    OUTONO






    OUTONO





    Não há mais andorinhas nos beirais
    Nem zumbem as abelhas pelos campos,
    Nos rios já aumentam os caudais
    Mercê da Natureza com seus prantos.

    Passou a Primavera e o Estio
    Deixou atrás seus tempos de pujança.
    Do Norte sopra agora um vento frio
    Que acende uma lareira na lembrança.

    No chão, de folhas mortas, um tapete
    De que se despojou o arvoredo
    Em tempo, que é agora, de seu sono.

    Qual ordem que em silêncio se repete
    Por toda a Natureza, num segredo,
    Sintomas da chegada de Outono.




    VITOR CINTRA
    do Livro " ECOS "

    Domingo, Novembro 11, 2007

    ENTENDIMENTO








    ENTENDIMENTO





    Independentemente da saudade

    Que nos corroi a alma com lembranças,

    Existem certas semelhanças

    Que podem sugerir proximidade.




    De colonizador's fomos chamados,

    Em depreciativo tom. Aqui!

    O certo é que, pensando o que vivi,

    Nós fomos sempre, e só, colonizados.




    O colonizados não se sujeita

    A viver pobremente a trabalhar,

    Sem nada ter, de seu, para mostrar;



    Mantém-se, no conforto, sempre á espreita

    Da forma de tirar algum partido

    Do jugo a que se sujeita o oprimido.









    VITOR CINTRA


    do livro " ECOS "

    Sábado, Novembro 03, 2007

    DISPOSIÇÃO




    DISPOSIÇÃO


    Existe neste mundo um paraíso,
    No qual a nossa alma rejubila,
    Viver o dia a dia co'um sorriso
    E ter a consciência tranquila.


    E porque cabe só no foro interno,
    A raiva que resulta de postura,
    Existe em cada um o seu inferno,
    Em forma de revolta e amargura.


    Mas seja, quer sagrado quer profano,
    O modo de sentir do ser humano,
    Há sempre uma verdade que persiste,


    Só toma o seu destino por perverso
    Quem julga ser o centro d'universo,
    E dessa presunção nunca desiste.




    VITOR CINTRA
    Do livro " Relances "








    Terça-feira, Outubro 23, 2007

    ENJEITAO





    ENJEITADO



    Batem longe as badaladas;
    Chamam gente à oração.
    Quantas lágrimas choradas
    Por crianças desprezadas,
    A viver em solidão.


    O menino só, que 'spera
    Ter da vida um pouco mais,
    Quantas vezes desespera,
    Porque os sonhos são quimera,
    Sem saber quem são os pais.


    E o olhar, que é tão bonito,
    Vai na tarde quente, calma,
    Mergulhar no infinito,
    Triste, meigo mas aflito,
    Porque é dor que traz na alma.



    VITOR CINTRA
    do livro " Relances "

    Terça-feira, Outubro 09, 2007

    ENVELHECENDO




    ENVELHECENDO



    O homem nunca se esquece

    Dum bom acontecimento

    Que, quando a vida anoitece,

    Relembra a cada momento.




    Por isso mesmo acontece

    Deixar-se perder no tempo

    Memória sã, que envelhece.

    E logo se diz sem tento.




    Mas, quando o descernimento

    Que temos, nos aparece,

    Qual força de entendimento,




    Ao velho, que nos merece

    Carinho, damos alento,

    Com doce fervor de prece.




    VITOR CINTRA


    do Livro " Divagando "






    Quinta-feira, Setembro 20, 2007

    PALHAÇO









    PALHAÇO





    Num palco que não existe,

    Contrário ao que é 'sperado,

    Actua um palhaço triste.

    Por isso mesmo lembrado.






    Num diz que diz, recitado,

    Sabendo ser utopia,

    Surgiu, embora pintado,

    Palhaço sem alegria.






    Não vive num faz de conta,

    Sem ter em conta o que resta

    Na vida, que quer honesta.



    Nem sente qualquer afronta

    Por ver, que em tempo passado,

    A vida passou-lhe ao lado.




    VITOR CINTRA




    do livro " Divagando "

    Domingo, Setembro 16, 2007

    TACTO







    TACTO


    Quando me exortas
    Sem arremedos,
    Abrem-se portas,
    Calam-se os medos;
    E a horas mortas,
    Os meus segredos
    Abrem comportas,
    Sem mais enredos.



    Vitor Cintra


    do Livro " Vertigem "

    Sábado, Setembro 01, 2007

    EM TI ...




    EM TI ...


    Em ti se engrandece a vida!

    Em ti se repete o mundo

    E, num confronto fecundo,

    Em ti começa a subida.




    Em ti se resume a esp'rança!

    Em ti se vive o futuro

    E, num impulso seguro,

    Em ti se faz a mudança.




    Em ti a paz acontece,

    Com grande sagacidade

    E toda a tranquilidade.




    Em ti a luz aparece,

    Em cada olhar, cada gesto,

    Por mais que seja modesto.






    VITOR CINTRA

    do livro " Divagando "




    Sexta-feira, Agosto 24, 2007

    PRESENÇA





    PRESENÇA


    A vida de toda a gente
    Tem sempre a mulher presente.
    Mulher pureza, ou pecado,
    Mulher que vive a teu lado.

    Mulher vida, mulher mãe.
    Mulher madrasta também.
    Mulher alegre, vibrante;
    Mulher amiga, ou amante.

    Mulher triste ou insegura;
    Mulher sorriso, ternura;
    Conforto na desventura.

    Mulher esposa, carinho;
    Mulher perdida, sem ninho,
    Caida no mau caminho.




    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    Terça-feira, Agosto 14, 2007

    SANTA MARIA





    SANTA MARIA


    Ilha do Sol, Deus te fez!
    Amou-te Gonçalo Velho
    Ao ver-te a primeira vez,
    Das águas, feitas espelho.

    Colombo, no seu regresso,
    Buscou em ti o abrigo.
    E fê-lo com tal sucesso
    Que à Virgem rezou contigo.

    Santa Maria, na luz,
    Nas praias, baías calmas,
    Tens esplendor, que traduz
    Beleza, p'ra muitas almas.

    Se Portugal é um templo,
    Que a Virgem Santa acolheu,
    Partiu de ti o exemplo
    Pois que o Seu nome é o teu.



    Vitor Cintra

    Do livro " Á DISTÂNCIA "

    Segunda-feira, Agosto 06, 2007

    BOA SINA



    BOA SINA


    Talvez por ver a vida em tom severo,
    Ou porque nada nela me foi dado,
    Olhei-a, muitas vezes, só de lado,
    Se bem que com razões de desespero.

    Os filhos que criamos duma forma
    Julgada que é, por nós, a mais correcta,
    Acabam por traçar a sua meta,
    Dizendo ultrapassada qualquer norma.

    Sabendo quantas vezes é madrasta
    A sorte que, tentada, nos afasta
    Daquilo que se toma por rotina.

    Embora receando o que acontece,
    Apenas vou ousando, numa prece,
    Pedir que seja boa a sua sina.



    VITOR CINTRA

    Do Livro " ECOS "

    Quinta-feira, Agosto 02, 2007

    SENTIMENTOS




    SENTIMENTOS


    Vindos do fundo dos tempos,
    Por caminhos sempre estranhos,
    Chegam-nos os sentimentos
    Que, por vezes, são tamanhos.

    Uns são bons, ás vezes tanto
    Que nos causam mesmo medo;
    Muitos provocam o pranto,
    Outros exigem segredo.

    Sempre que um deles desaponta,
    Em momento inesperado,
    Deixa alguém angustiado;

    É que, mesmo sem dar conta,
    Quem por ele é atingido
    Fica até surpreendido.



    VITOR CINTRA

    Do livro " ECOS "

    Domingo, Julho 22, 2007

    ÀS MÃES





    ÀS MÃES



    A mãe é, p'ra cada um,
    O maior ser de excepção,
    Com lugar no coração,
    Mais sagrado que nenhum.

    A mãe é, por mil razões,
    O padrão do Universo,
    Mesmo quando controverso
    Seu saber e decisões.

    São angústias que supera,
    Desencantos, até vícios,
    P'lo carinho que nos tem.

    Desde o ventre, que nos gera,
    Não se poupa a sacrifícios,
    Porque mãe, é sempre Mãe.




    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    Quinta-feira, Julho 12, 2007

    ANSEIO






    ANSEIO








    Nessa imensa ansiedade


    De crescer e ser mulher,


    Desperdiça a mocidade,


    Natural na sua idade,


    Sem viver feliz, sequer.




    Nesta terra das mil cores


    Cada tempo tem encantos.


    Se no campo há sempre flores,


    E no ar há sempre odores,


    Na paixão há sempre prantos.




    No amor não há desdita,


    Quando existe vida calma.


    A mulher é mais bonita


    Se, também ela, acredita


    Que a beleza vem da alma.






    Quarta-feira, Julho 04, 2007

    PROSTITUTA








    PROSTITUTA






    Chamas-lhe " mulher sarjeta "
    Porque se vende na rua ...
    - Afinal, uma faceta
    Duma vida, como a tua . -


    " Sarjeta " ?! ... " Mulher da vida" ?! ...
    Pois chama-lhe o quiseres
    Há tanta mulher perdida
    Igual às outras mulheres !



    É mais nobre a prostituta
    Que, mesmo num rumo torto,
    Não vende os seus sentimentos,


    Que muita "dama" impoluta
    Que, no recurso ao aborto,
    Mascara comportamentos.





    VITOR CINTRA
    do Livro " Vertigem "




    Terça-feira, Junho 26, 2007

    PENAS





    PENAS

    Sobre os ombros a sacola,
    No caminho para a escola,
    Empurrada pelo vento;
    Enterrados os pezinhos
    Nos lameiros dos caminhos,
    Passo a passo, num tormento.

    Tiritando com o frio
    Vai olhando para o rio
    Que rouqueija, com fragor;
    Com coragem de criança
    Vence o medo, porque avança,
    Mas no rosto lê-se a dor.



    VITOR CINTRA
    do livro " ECOS "

    Segunda-feira, Junho 18, 2007

    DESPERTAR




    DESPERTAR


    Quando o sol beijou a terra
    Não havia já luar,
    Apagou-se atrás da serra
    Afundando-se no mar.

    Mas as ninfas que moravam
    Nos regatos, entre montes,
    Com seus cantos despertavam
    Os duendes, reis das fontes.

    N'alegria dos sentidos
    Acordava a Natureza
    Entre as cor's de mais beleza;

    E os poetas esquecidos,
    Inspirados pelas musas,
    Versejavam gestas lusas.


    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    Quarta-feira, Junho 13, 2007

    RETROSPECTIVA



    RETROPESCTIVA

    Cansado da vida,
    Perdido no tempo,
    A alma rendida,
    Sem encantamento;
    A força perdida
    Por esgotamento,
    A mente vencida
    Pelo sofrimento.

    Saudade chorada
    Co'a voz embargada,
    A sorte jogada
    Num mundo sem nada.

    Nos anos passados,
    Sem eira nem beira,
    Os dias marcados
    Por muita cegueira;
    Os tempos trocados
    Por ventos de feira;
    Destinos cruzados
    De qualquer maneira.

    Refeito o caminho,
    Seguido sozinho,
    Recorda-se o ninho
    Com muito carinho.

    Rescaldos de dor
    Das mágoas sofridas;
    Afagos de amor
    Das paixões vividas;
    Amargo sabor
    Das horas perdidas;
    Restando o fervor
    Das preces sentidas ...




    VITOR CINTRA

    Do livro " ECOS "

    Quarta-feira, Junho 06, 2007

    À VIDA




    À VIDA



    O prefácio duma vida,
    Seja lá ela qual for,
    Começou ao ser sentida
    A chamada do amor.

    Antes mesmo que aconteça
    O final duma união,
    Essa vida já começa
    Num bater de coração.

    É essência deste mundo
    - No sentido mais profundo -
    É-lhe devido respeito.

    É pequena e indefesa,
    Mas um dom da Natureza.
    Matá-la? ... Com que direito ?! ...




    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    Domingo, Junho 03, 2007

    LEVIANDADE



    LEVIANDADE

    Por cuidar que estais, senhora,
    Co'a maior falta de senso,
    Fico triste quando penso
    No dia em que ireis embora.

    Nem momentos já vividos,
    Nem quaisquer juras de amor,
    Contarão como penhor
    De propósitos perdidos.

    Valerá, acaso, a pena
    Procurar, num outro lado,
    O amor desperdiçado? ...

    Quem tem alma tão pequena
    Nunca há-de achar um jeito
    Que lhe valha algum respeito...



    VITOR CINTRA
    do livro " ECOS "

    Domingo, Maio 27, 2007

    SUBCONSCIENTE






    SUBCONSCIENTE




    De vidas passadas

    Há coisas guardadas,

    Que surgem lembradas

    Na nossa memória;

    Em certos momentos

    São só sentimentos,

    Ou só pensamentos

    Que contam a história.




    VITOR CINTRA


    Do livro " À DISTÂNCIA "


    Sexta-feira, Maio 25, 2007

    PASSAGEM





    PASSAGEM

    Só eu, que vivo um sonho de gigante,
    Na pequenez dos versos que componho,
    Cantando o que é passado, bem distante,
    E, do presente, o que é apenas sonho;

    Só eu, que desejei que a lusa gente
    Se mantivesse nobre, como outrora,
    E que, na pequenez do seu presente,
    Levasse essa nobreza mundo fora ;

    Direi que alguma vez será passado
    Aquilo que, nos povos africanos,
    Por lá deixou ficar cada soldado.

    Bem mais do que a lembrança dessas guerras,
    Perdurará ainda, muitos anos,
    O muito que fizeram nessas terras.



    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    Sábado, Maio 19, 2007

    COISAS






    COISAS


    Há coisas no nosso mundo
    Que fazem dizer à gente
    Às vezes, um NÃO rotundo,
    Mas outras, um SIM pungente.


    Há coisas, na nossa vida,
    Que trazem, no dia a dia,
    Às vezes, mágoa sentida,
    Mas outras, muita alegria.


    Há coisas, nos nossos sonhos,
    Calados como segredos,
    Às vezes, fundos medonhos,
    Mas outras, apenas medos.




    VITOR CINTRA


    Do livro " À DISTÂNCIA "

    Domingo, Maio 13, 2007

    CHEIRO





    CHEIRO



    Teu corpo, poema ardente,
    Frenética rima de ais,
    Aurora, pedindo mais,
    Com louco vigor, fremente.


    Teu rosto, sorriso aberto,
    Promessa, sonho, desejo,
    Tornando-se a cada beijo
    Tão quente, quanto tão certo.


    E o dia feito uma hora,
    Por entre os ais e os gemidos,
    Festim, sem par, dos sentidos.


    Mas, quando te vais embora,
    Só fica o teu cheiro, intenso,
    Enchendo o vazio imenso.





    VITOR CINTRA


    do livro " À DISTÂNCIA "


    Domingo, Maio 06, 2007

    EM CALCUTÁ




    EM CALCUTÁ




    Chamou-te o Senhor Deus para as ruelas

    Aonde, por miséria, se definha

    E foste, sem receio de ir sozinha,

    Cuidar dos infelizes que andam nelas.


    Por ordem do Senhor, viveste ali;

    Co'a força do Senhor, cuidaste deles;

    Serviste, dos humildes, os mais reles,

    Co'a graça que o Senhor te deu a ti.


    E restam, nas imagens mais lembradas,

    Os gestos dessas mãos abençoadas

    P'lo dom da caridade, lenitivo


    Da dor do indigente, fugitivo

    Da vida e consciência dos humanos,

    Tão frios e distantes quanto urbanos.




    VITOR CINTRA


    Do livro " À DISTÂNCIA "

    Quarta-feira, Maio 02, 2007

    PREFIRO





    PREFIRO



    Não quero ficar na memória das gentes
    Devido a riquezas que saiba guardar,
    Prefiro lembranças, quiçá mais decentes,
    Nascidas das causas que soube abraçar.

    Não quero tornar-me modelo de alguém
    Por ocas palavras, discursos à toa,
    Prefiro tornar-me lembrança de quem
    Escute em meus versos a alma que ecoa.

    Não quero sentir sedução pelos mundos
    Que não reconhecem os homens de bem,
    Nem mesmo respeitam a fé de ninguém;

    Prefiro guardar sentimentos, profundos,
    De paz e justiça, partilha e amor,
    Tornados permissas dum mundo melhor.




    VITOR CINTRA

    do livro " Á DISTÂNCIA "

    Sexta-feira, Abril 27, 2007

    SOFIA



    SOFIA



    De pequena refilona,
    Sem receio de ninguém,
    Pondo tudo na " mafona "
    - Aliás, como convém -.

    Foi crescendo, sendo arguta,
    - Sempre a mesma " trovoada " -
    Quando envolvida em disputa,
    Nunca a vi ficar calada.

    Se a razão lhe não assiste,
    Argumenta a seu favor;
    E faz isso com fervor.

    Se o momento for mais triste
    Acha sempre uma maneira
    De ser boa companheira




    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    Segunda-feira, Abril 23, 2007

    FILHO





    FILHO

    Nascido entre as irmãs, foste o segundo
    Dos filhos com que Deus me abençoou;
    Foi tal a emoção de vir's ao mundo
    Que o céu, em depressão, se desabou.

    Em honra de meu Pai te dei o nome,
    Um nome que, também eu, recebi;
    Pois, neste imenso amor que me consome,
    Melhor não saberia achar p'ra ti.

    Que Deus, em Sua graça sublime,
    Ajude a tua vida, te ilumine,
    Que sejas, hoje e sempre, homem de bem.

    O nome, que é herdado, tem valor
    Se cada um de nós fizer melhor
    Do que já fez seu pai, ou sua mãe.



    VITOR CINTRA

    do Livro " ECOS "

    Sexta-feira, Abril 20, 2007

    HELENA




    HELENA


    Helena fora já, num outro tempo,
    Um nome atravessado em meu caminho.
    A vida quis-me pai e, num momento,
    Gerada foi Helena, meu carinho.

    Talvez por ser maior, no coração,
    A esp'rança, nesta filha, investida,
    Sofri muito maior desilusão
    Por vê-la, tantas vezes, tão perdida.

    Não sendo, como pai, o mais perfeito,
    Não deixo, mesmo assim, e do meu jeito,
    De ter-lhe grande amor, desde pequena.

    Se a Deus, em Sua graça, Lhe aprouver,
    Será bem mais feliz, como mulher,
    A filha por quem temo, a minha Helena.



    VITOR CINTRA

    do livro " ECOS "

    Quarta-feira, Abril 18, 2007

    OS 5 BLOGS QUE ME FAZEM PENSAR




    OS 5 BLOGS QUE ME FAZEM PENSAR




    '5 Blogs That Make Me Think'




    Sinto-me duplamente honrada e muito feliz, pelo amigo do blog
  • LIVROS E AUTORES, se ter lembrado de nomear os meus dois blogs, como dois dos
  • " CINCO BLOGS QUE ME FAZEM PENSAR ".

    Ao autor do blog LIVROS E AUTORES , o meu agradecimento, pelas escolhas do :

    A POESIA DE VITOR CINTRA

    e

    ALMA DE POETA




  • É uma missão ingrata ter de nomear 5 blogs, pois que existem muitos que gosto de ler.
    Tendo de optar, fiz as seguintes escolhas :



  • MULHERES DE ATENAS



  • SANTA MARIA-AÇORES


  • DESAMBIENTADO



  • A PAPOILA



  • BUFAGATO






  • Os autores dos blogs que nomeei devem copiar o selo correspondente e afixá-lo na barra lateral dos seus blogs.

    De seguida devem nomear os cinco blogs que escolheram e fazer um post a nomeá-los.


    Beijo a todos


    Isabel

    Quinta-feira, Abril 05, 2007

    FIM DE TARDE



    FIM DE TARDE



    Os olhos vagueando o horizonte
    Vislumbram lá no cume, atrás do monte,
    O sol que se recolhe ao fim do dia.
    Pintado de laranja o arenito
    Desperta nesse ocaso,como um grito,
    Fantasmas, com um toque a fantasia.

    Saídas das memórias da infância
    Ressoam badaladas, à distância,
    Chamando à oração o povo crente;
    Na tarde, que se esvai, melancolica,
    A par de quanto resta de alegria,
    Acalma o coração de toda a gente.

    A noite, que ao cair envolve tudo,
    Abafa, numa sombra, gesto mudo,
    Um tempo que não volta mais atrás;
    Do norte soa agora a voz do vento,
    Baixinho, quase apenas um lamento,
    Com medo de quebrar aquela paz.



    Vitor Cintra
    Do livro " Alegorias "

    Domingo, Março 18, 2007

    CASTELOS




    CASTELOS



    À volta dos meus castelos,
    Erguidos no dia a dia,
    Há sombras de nostalgia,
    Que surgem ao descrevê-los.



    Muralhas ontem erguidas,
    Por medos insuspeitados,
    Queixumes, quantos calados,
    Vergonhas, nunca assumidas.


    Do tempo verteram horas
    Que a vida deixou passar,
    Castelos, feitos no ar,
    Por pressas, ou por demoras.


    E tudo o que resta ainda
    Erguido, como muralha,
    Não passa duma mortalha
    Da vida, que já se finda.





    Vitor Cintra

    Do livro " Á DISTÂNCIA "

    Sábado, Março 03, 2007

    ERICEIRA





    ERICEIRA


    Debruçada sobre o mar,
    Vendo as ondas rebentar
    Entre calmas e furores,
    Ericeira permanece
    Vila simples, que parece
    Falar só de pescadores.

    Do mar vem-lhe mais sustento
    Quando as ondas, mais o vento,
    Lhe permitem ir á faina;
    E diverte-se o " surfista ",
    Se essas ondas fazem crista,
    Quando o vento norte amaina.



    Vitor Cintra

    Do livro " Á DISTÂNCIA "

    Sábado, Fevereiro 24, 2007

    DESGARRADAS








    DESGARRADAS


    Na solidão do meu mundo
    Mergulho no desespero,
    Sofrendo cada segundo
    Mais penas, porque te quero.



    São margaridas, as flores
    Tão belas quanto mimosas;
    Tão gratas são os amores,
    Como à paixão são as rosas.


    Há mais calor no sorriso
    Que faz promessa de beijos,
    Do que o calor que é preciso
    Para acender os desejos.


    Cada promessa calada,
    Quando se fala de amor,
    É como rosa fechada
    Entre roseiras em flor.


    É no momento mais duro,
    Quando o amor se deseja,
    Que o coração, mais seguro,
    Cede á paixão e fraqueja.




    Vitor Cintra


    Do livro " À DISTÂNCIA "

    Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007








    Sentes-te só!
    E a dor da solidão, que te acompanha,
    Obriga a tua vida a ser tacanha,
    Insípida, vulgar, e sem destino;
    Mas, se por dó,
    Aceitas transformar o teu futuro
    Em algo que acreditas mais seguro,
    Acabas cometendo desatino.

    Ninguém tem mais
    Do que somente alma e o talento,
    Que o façam abraçar cada momento
    Como o melhor, que a vida lhe há-de dar.
    Quaiquer sinais,
    Tomados por prenúncio de fortuna,
    Serão tal qual areia numa duna,
    Que voa, assim que o vento lhe soprar.



    Vitor Cintra

    Do livro " Á DISTÂNCIA "

    Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

    FALTA



    FALTA






    Mergulhado nas certezas
    Que me causam mais tristezas,
    Do refúgio em que me isolo,
    Olho a serra e oiço o mar
    E os segredos do luar.

    Do amor, que nunca tive,
    Só o sonho sobrevive,
    Sem proveito, ou qualquer dolo,
    E que marca um sacrifício
    De renúncia, desperdício.

    Mas, nas noites de invernia,
    Quando bate a nostalgia,
    Sinto a falta do consolo,
    Que nos vem duma carícia
    Com tempero de malícia.



    Vitor Cintra

    Do livro " À DISTÂNCIA "

    Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

    SOZINHO




    SÓZINHO



    Por me deitar sozinho, sinto falta
    Do toque do teu corpo, do carinho
    Dos seios, que não acho, estou sozinho
    Num leito que, vazio, sobressalta.


    Por me deitar sozinho, sinto falta
    Do fogo, que se espalha p'los meus dedos,
    Sedentos de afagar os teus segredos
    Num sonho de erotismo, que me assalta.

    Por me deitar sozinho, temo a noite,
    Que teima em arrastar-se, lentamente,
    Sem dar repouso ao corpo, nem à mente;



    E sem o teu regaço, onde me acoite,
    Acabo por pensar que a madrugada
    Atrasa, de propósito, a chegada.




    Vitor Cintra

    Do livro "À DISTÂNCIA "

    Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

    REENCONTRO




    REENCONTRO


    Assim me queiras tu que, por meu lado
    Não vou deixar de amar-te, nunca mais,
    Ainda que os dislates do passado
    Nos tornem mais diferentes do que iguais.


    Nasci para te amar e ser amado
    Por ti, que me fizeste recordar
    Distantes horizontes do meu fado,
    Tão cheio dos azuis de céu e mar.


    Nem tudo está perdido, no meu mundo,
    Enquanto eu encontrar, no teu sorriso,
    A força e o carinho, que preciso.


    Serei feliz até, cada segundo
    Que vir, do teu olhar, a ansiedade
    Sair p'ra dar lugar à f'licidade.




    Vitor Cintra

    Do livro " Á DISTÂNCIA "

    Domingo, Janeiro 21, 2007

    AO NATURAL





    AO NATURAL



    Penhascos, em ravinas escarpadas,
    Espreitam, lá do alto, o oceano,
    Em volta as andorinhas, agitadas,
    Procuram novos ninhos, este ano.



    Ao sol da Primavera, que as aquece,
    Gaivotas, com grasnidos agoirentos,
    Vigiam, lá do alto, o que acontece,
    Planando, sobre as fragas, contra o vento.



    Escorrem, das quebradas, os regatos
    Lançados em corrida para o mar,
    Contando suas mágoas ao passar.


    Atentos, mas mantendo seus recatos,
    Há melros, que esvoaçam, atrevidos,
    À caça dos insectos distraídos.



    Vitor Cintra

    Do livro " Á DISTÂNCIA "

    Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

    ENUNCIADO



    ENUNCIADO


    Primeiro:
    Não há dinheiro,
    No mundo inteiro,
    Cujo valor
    Valha um amor,
    Vivido a sério.



    Segundo:
    Por todo o mundo,
    Se crê profundo
    O sentimento,
    Que o pensamento
    Tem por mistério.


    Terceiro:
    Ver no perceiro
    O dom cimeiro,
    Que o mundo encerra,
    Deita por terra
    Qualquer critério.





    Vitor Cintra

    Do livro " À DISTÂNCIA "

    Quarta-feira, Janeiro 03, 2007

    SORRISO


    SORRISO



    Há lá coisa mais bonita
    Que um sorriso de mulher?!
    Quando a alma mais se agita,
    De alegria, ou na desdita,
    É um sorriso que ela quer.

    Um sorriso cativante,
    De promessa insinuada,
    Que a inspire no bastante
    P'ra não ver na vida errante
    Solução p'ra tudo e nada.

    Um sorriso simpatia,
    Que, ao mostrar cumplicidade,
    Lhe transmite essa alegria,
    Que é enlevo, e cada dia,
    Gera mais felicidade.


    Vitor Cintra

    Do livro "Á DISTÂNCIA "

    Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

    INVERNO



    INVERNO

    Vestida está, de branco, toda a serra,
    Prenúncio do Natal que se aproxima;
    O vento, que nos sopra lá de cima,
    É gelo que fustiga toda a terra.

    O fumo que se escapa de repente,
    Do topo duma ou outra chaminé,
    Indica que a aldeia põe-se a pé,
    - Desperta, como o dia, lentamente -.

    Um galo, que ao romper da madrugada
    Se esforça por saudar a alvorada,
    Já canta no mais alto dos poleiros.

    Em ciclo natural, que surge eterno,
    Sucedem-se as chuvadas do Inverno,
    Depois dos muitos dias soalheiros.



    Vitor Cintra

    " ECOS "

    Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

    BUCÓLICO



    BUCÓLICO

    Veio o sol! ... A madrugada
    Recolheu-se, envergonhada
    Do seu lento madrugar.
    Pintalgada com magia
    Surge a cor do novo dia,
    Feita vida a despertar.

    Passam corvos e os grasnidos,
    Que nos chegam aos ouvidos,
    São protestos de viúva;
    Viuvez que a veste escura,
    Simbolismo de amargura,
    Acentua quando há chuva.

    Cantam melros nos silvados,
    Académicos alados
    Do saber da Natureza;
    Mesmo á beira dos caminhos
    Há pardais, fazendo ninhos
    Com afã, arte, beleza.

    Corre Março, mas Abril
    Vai chegar, com " águas mil "
    E com campos verdejantes;
    É a vida que acontece,
    Toda ela feita prece,
    Hoje e sempre, como dantes.


    Do livro " Alegorias "

    Terça-feira, Novembro 21, 2006

    DIVAGANDO






    DIVAGANDO


    Ao divagar vi um mundo
    De amor, de paz e justiça
    P’ra descobrir, num segundo,
    Ganância, dor e preguiça.
    E, divagando, pensei:
    “ Será que o mundo tem lei? ”

    Ao divagar vi verdade,
    Razão, prudência, lisura,
    P’ra descobrir falsidade,
    Traição, inveja, amargura.
    Só, divagando, se vem
    Dizer que o mundo está bem.

    Ao divagar vi grandeza
    Nos actos, nos sentimentos,
    P’ra descobrir a baixeza
    Nos gestos e pensamentos.
    Mas, divagando, se diz
    Que o mundo vive feliz


    Vitor Cintra

    Do livro “ Alegorias”

    Segunda-feira, Novembro 06, 2006

    ARQUIPÉLAGO




    Ilhas dos Açores,
    Terra dos vulcões,
    Meigas nos amores,
    Loucas nas paixões.



    Frei Gonçalo Velho
    Fez o que podia,
    Com bom senso e relho,
    Por Santa Maria.





    Se há em S.Miguel,
    Pouca simpatia,
    Só quem for cruel
    Nega ver magia.




    Ó ilha Terceira,
    Chamam-te recreio,
    Deixa! É brincadeira!
    Nada tem de feio.




    Diz-se do Faial,
    Que quaisquer caminhos
    Vão sempre, afinal,
    Dar aos Capelinhos.




    Pico, tão formosa
    P'lo queijo e "verdelho",
    Sentes-te ciosa
    Desse saber velho.




    Ilha das fajãs,
    São Jorge dos queijos,
    Gentes de almas sãs
    São as que em ti vejo.




    Ilha Graciosa,
    Branca de apelido,
    Dizes-te vaidosa.
    Faz algum sentido.



    Pelo bem que cheiras,
    Pelas tuas cores,
    Ilha das Caldeiras
    Dizem que és "das Flores ".



    Corvo, tão pequena,
    Ergues-te à distância,
    Mas neste poema,
    Tens muita importância.



    Vitor Cintra
    "Alegorias "

    Sexta-feira, Outubro 27, 2006

    DESTINO






    DESTINO


    Eram estas e aquelas,
    Umas feias, outras belas,
    À conquista deste mundo;
    Procurando o prazer delas
    Não pensavam nas sequelas,
    Nem paravam um segundo.

    Ao chamar-lhe preconceito
    - Que venceram, por dar jeito
    Ao viver de libertinas, -
    Desdenharam por despeito,
    Dos princípios do respeito,
    Que aprenderam em meninas.

    Como gatas tendo o cio
    Qualquer macho lhes serviu
    Nessa saga de prazer;
    Mas, do tempo que fugiu,
    Restou só o leito frio
    E tristeza a condizer.

    Já perdidos os encantos,
    Sós no mundo, com seus prantos,
    Olhar triste, sempre errante,
    Lembram homens – foram tantos,
    Possuídos pelos cantos, -
    Doutro tempo, já distante.



    Vitor Cintra


    Do livro " Alegorias "

    Quarta-feira, Outubro 18, 2006

    ORFÃO


    (Foto de Marília Gomes)


    ORFÃO


    Mora na rua deserta,
    Sem encontrar porta aberta
    Que lhe dispense um carinho;
    Há, nessa alma carente,
    Temor de toda essa gente
    Com quem cruzou o caminho.

    Quando morreu sua avó
    Ficou mais orfão, mais só,
    Dos pais, lembranças nem tem;
    Do mundo todo é vizinho,
    Mas continua sozinho
    Sem ter cuidados de alguém.

    Nesse desprezo da sina
    Somente a vida lhe ensina
    Quanto a " Fortuna " é madrasta;
    Pois, apesar de criança,
    Deixou ficar toda esp'rança
    Na meninice já gasta.




    Vitor Cintra


    Do livro "Alegorias"

    Quarta-feira, Outubro 11, 2006

    ESPIGA





    ESPIGA


    Nos campos de trigos,
    Papoilas e trevos,
    Há ninhos, abrigos,
    Abraços, enlevos,
    Orgasmos, gemidos,
    Carícias, segredos
    Na voz dos sentidos,
    Frementes e ledos.


    Vitor Cintra


    Do Livro " Vertigem "

    Segunda-feira, Outubro 02, 2006

    FONTE








    FONTE


    A fonte da minha aldeia
    Murmura, mas docemente.
    E tudo quanto a rodeia
    Provoca em nós a ideia
    Que canta por 'star contente.

    Nas noites de lua cheia
    Co'a gente lá reunida,
    A noite não se receia,
    O povo só cavaqueia.
    A fonte ganha mais vida.

    Se as tardes são de domingo,
    A fonte vai murmurando
    Ás moças, que vão surgindo.
    Rapazes chegam, sorrindo;
    Namoros vão despontando.

    É certo que tem a fonte
    Valor imenso p'ra nós;
    Além da água do monte
    Transporta do horizonte
    Desejos de estarmos sós.



    Vitor Cintra

    "Alegorias"

    Domingo, Setembro 24, 2006

    POETA




    POETA



    Ser poeta ... é delirar,
    Delirar alegre, ou triste ;
    Fazer versos é sonhar
    Co'aquilo que não existe.


    Ser poeta ... é esquecer,
    Da vida, a realidade,
    É, num abraço, abranger
    O mundo e a eternidade.


    Ser poeta, realmente,
    É viver da ilusão
    Nas horas de solidão;


    É escrever o que se sente
    Dando asas, livremente,
    Á nossa imaginação.


    Vitor Cintra


    Do livro " DISPERSOS "

    Quarta-feira, Setembro 13, 2006

    SOCONE




    SOCONE



    Vejo, da minha janela,
    Este mar verde, de chá,
    Como paisagem é bela,
    Embora sinta que nela
    Mais nostalgia me dá.


    Corre, sem pressas, o tempo,
    Numa maior fantasia;
    Este correr, de tão lento,
    Traz-nos um bom sentimento,
    De muita paz, cada dia.


    Quem, por sentir-se poeta,
    Sonha viver vida assim,
    Sem precisar ser asceta
    Pode atingir essa meta,
    Neste mar verde, sem fim.



    Vitor Cintra



    Do livro " Memórias "

    Domingo, Setembro 03, 2006

    MEDOS




    MEDOS



    Perdido, confuso,
    Tornei-me um intruso
    Na vida que é minha,
    Sem ver, nos meus actos,
    Quaisquer desacatos
    De força maninha.


    Receio este medo,
    - Tornado segredo
    No curso dos anos -
    Pois vem do passado,
    Embora marcado
    Por muitos enganos.


    Tirei do trabalho
    Aquilo que valho,
    Vencendo receios;
    Até que, cansado,
    Senti ser tocado
    Por medos alheios.


    Mudei de caminho,
    Fugindo, sózinho,
    De muitos, ou poucos;
    Receios, tormentos,
    Impulsos, alentos,
    Num mundo de loucos.



    Vitor Cintra


    Do livro " Memórias "

    Domingo, Agosto 27, 2006

    OBSESSÃO







    OBSESSÃO



    Pedisse o mundo inteiro eu lho daria,
    Por muito que isso fosse inconsciente;
    Em nós era tão grande a empatia
    Que nem pensar podia ser dif'rente.


    Vivendo em dependência doentia,
    Aquela paixão louca, permanente,
    Sem ver, à nossa volta, se existia
    Qualquer razão de vida mais premente...


    Sorvido, num delírio, cada dia,
    O mundo do futuro era o presente,
    Sem ver, no amanhã, mais garantia


    Que a chama intensa desse amor ardente,
    Que até se consumar nos consumia
    O corpo e alma, a vida, a própria mente.


    Vitor Cintra


    Do livro " Ao Acaso "

    Terça-feira, Agosto 22, 2006

    DISTANTES









    DISTANTES



    Com penas,
    é certo,
    nem sempre pequenas,
    Cruzámos a vida a par;
    Nem perto,
    nem longe,
    Distantes, apenas.
    Com vidas de monge.

    Tentámos manter um lar.



    Vitor Cintra


    Do livro " Momentos "

    Segunda-feira, Agosto 14, 2006

    RETROSPECTIVA








    RETROSPECTIVA



    Cansado da vida,
    Perdido no tempo,
    A alma rendida,
    Sem encantamento;
    A força perdida
    Por esgotamento,
    A mente vencida
    Pelo sofrimento.
    Saudade chorada
    Co'a voz embargada,
    A sorte jogada
    Num mundo sem nada.
    Nos anos passados,
    Sem eira nem beira,
    Os dias marcados
    Por muita cegueira;
    Os tempos trocados
    Por ventos de feira;
    Destinos cruzados
    De qualquer maneira.
    Refeito o caminho,
    Seguido sózinho,
    Recorda-se o ninho
    Com muito carinho.
    Rescaldos de dor
    Das mágoas sofridas;
    Afagos de amor
    Das paixões vividas;
    Amargo sabor
    Das horas perdidas;
    Restando o fervor
    Das preces sentidas ...




    Vitor Cintra


    do livro " ECOS "

    Terça-feira, Agosto 08, 2006

    AS MANCHAS





    AS MANCHAS



    As manchas, no mar, são sombras,
    Que as nuvens deixam cair.
    Sereias fazem as ondas,
    Tentando delas fugir.
    E nesse cavar de lombas,
    Que descem, mas vão subir,
    A espuma torna-se em pombas,
    Que voam, mas sem partir.


    Vitor Cintra


    Do Livro " Momentos "

    Terça-feira, Agosto 01, 2006

    SONHO





    SONHO



    Chegaste ...
    de repente e sem aviso !
    O delírio, num sorriso,
    chamando.
    Corpo e alma e tudo em mim
    vibrando,
    no vislumbre do ensejo,
    numa ânsia, num desejo,
    de ti.
    Ilusão que me sorri!
    Contraste
    doutros dias, maus, sem fim.



    Vitor Cintra

    do livro " Momentos "

    Sexta-feira, Julho 28, 2006

    QUEIXA


    (Fotografia de Joel Calheiros)




    QUEIXA



    O silêncio que transpira
    Deste amor, que tudo afronta,
    É razão que sempre inspira
    A labor de maior monta.


    Porque, mais dissimulado
    Que o silêncio do desejo,
    É saber ficar calado
    E fingir que nada vejo.


    Se, senhora, do pecado,
    Que me deixa tão chocado,
    É prazer que desejais,


    Um trabalho tão forçado
    Por vos ter um dia olhado,
    É castigo mau demais.


    Vitor Cintra

    Do livro " Divagando "

    Sábado, Julho 22, 2006

    AMAR



    AMAR



    Amar é estar em nova estada,
    É sim, é não, é tudo, é nada;
    É vir, partir, recomeçar,
    É rir, chorar, é recordar.


    É sol, é chuva, é dar sem ter,
    É bom, é mau, razão de ser,
    É paz, é guerra, é ilusão,
    É doce amargo, dom, paixão.


    É céu, é terra, é mar, é vento,
    É luz, calor, deslumbramento,
    É força, é dor, é uma miragem.


    É vida e morte, é renascer,
    É querer, sem crer e sem descrer,
    É fé, é culto de uma imagem.


    Vitor Cintra

    Do livro " Dispersos "

    Domingo, Julho 16, 2006

    FRONTEIRAS






    FRONTEIRAS



    Nas fronteiras do amor
    Há sempre uma zona escura
    Que, sem chegar a ser dor,
    Nunca chega a ser doçura.


    O coração a bater
    - Desespero desmedido -
    Uma ânsia de viver,
    Um desejo mal contido.


    Esp'rança no que não vem,
    Na certeza que há-de vir
    Fazer a vida sorrir,


    Sem receio de que alguém
    Possa surgir, num momento,
    E quebrar o encantamento.


    Vitor Cintra


    Do livro " Ao Acaso "

    Terça-feira, Julho 11, 2006

    CERTEZA




    CERTEZA



    Chegou o momento
    De te recordar,
    Cabelos ao vento,
    A luz no olhar,
    Sorriso de alento
    E seios de altar,
    Andar de tormento,
    Desejo de amar.


    Com toda a candura,
    Sonhando ternura;
    Esbelta figura;
    Beleza madura.


    Nenhum pensamento,
    Me vai dominar,
    Além do intento
    De te conquistar.
    Se algum sofrimento
    Me pode marcar
    É só por ver lento
    O teu regressar.



    Vitor Cintra

    Do livro " Memórias "

    Quinta-feira, Julho 06, 2006

    SEM AMARRAS





    SEM AMARRAS



    Quem 'screve poesia por prazer,
    Sem ter celebridade como meta,
    Embora sem um nome a defender
    Não deixa, mesmo assim, de ser poeta.


    Sei bem que pouco sou e não mereço
    Memórias, nesse tempo do futuro;
    Mas não serei refém do alto preço
    Que paga quem arrisca, " sem seguro ".


    Nasci de gente humilde, mas honrada.
    Só tendo o meu bom nome como herança
    Cruzei a vida, cara levantada.


    Não vou, para ver obra publicada,
    Deixar, neste meu nome, má lembrança
    De ter, em vida, fama bajulada.


    Vitor Cintra


    Do livro " Dispersos "

    Sábado, Julho 01, 2006

    COMPANHEIRA





    COMPANHEIRA



    Quando o sol beijou a lua,
    Num seráfico jardim,
    Minh'alma chamou a tua
    E o amor nasceu assim.

    Eram tempos de ternura
    Onde sonhos irreais,
    Num enlevo de candura
    Se mostravam tão reais.


    Mas o tempo, de tão lesto
    Ao passar, deixou atrás
    Coisas boas, outras más.


    Num sonhar bem mais modesto
    Transformou tudo, num gesto,
    Mas também nos trouxe a paz ...



    Vitor Cintra


    Do livro " RELANCES "

    Terça-feira, Junho 27, 2006

    DEDICAÇÃO






    DEDICAÇÃO



    Pediste que te abrisse o coração,
    Até que desvendasse alguns segredos,
    Mas ao contar-te a vida e seus enredos,
    Deixei-me dominar p'la emoção.


    Falei-te de vivências do passado,
    De mágoas, alegrias, dissabores,
    Falei-te até de causas e valores,
    E vi-me a revivê-los a teu lado.


    E foi ao mergulhar em outras eras,
    Que fiz extravasar os sentimentos,
    Angústia e despertar de sofrimentos;


    Comigo estavas tu, como quiseras,
    Tentando descobrir esse meu mundo,
    Num gesto, sem igual, de amor profundo.


    Vitor Cintra


    Do livro " Contrastes "

    Sexta-feira, Junho 23, 2006

    TU ÉS ...




    TU ÉS


    A nuvem que passa no céu do meu sonho,
    O vento que sopra a seara do amor,
    O fogo que queima as entranhas da dor,
    A chuva que lava o meu mundo bisonho.


    Tu és
    O sol que, num mito, me aquece o prazer,
    A noite estrelada que me há-de sorrir,
    A vida que surge no campo a florir,
    A esp'rança que faz o meu corpo tremer.


    Tu és,
    Na ânsia fremente, que invade a minha alma,
    A paz que se sente, que envolve, que acalma.



    Vitor Cintra


    Do livro " Momentos "

    Quarta-feira, Junho 21, 2006

    AMANHECER





    AMANHECER


    Além, na madrugada que desponta,
    Um galo desafia, no cantar,
    O dia, que se atrasa a despertar
    Dum sono sem cuidado, nem afronta.


    A lua, confidente dos amantes,
    Com brilho mais intenso que as estrelas,
    Entrando, descarada p'las janelas,
    Partilha das carícias ofegantes.


    Ao longe soam toques de matinas,
    Ouvidos nas encostas e ravinas;
    Ruídos doutro dia que começa.


    Com ninhos construídos nos beirais,
    Cuidando da penugem, os pardais,
    Esperam, chilreando, que amanheça.



    Vitor Cintra


    Do livro " Memórias "

    Segunda-feira, Junho 19, 2006

    DEVAGAR





    DEVAGAR


    Ao trilhar um bom caminho
    Duas formas há de andar,
    É faze-lo devagar
    Ou, então, devagarinho.

    Não será dogma de monge,
    Nem sequer um dito novo,
    Mas, lá diz a voz do povo:
    " devagar se vai ao longe !"


    A verdade que se encerra,
    Neste dito popular,
    Sei-a eu e também tu.


    Quanta gente, boa, erra
    Não andando devagar?!...
    " Quem tem pressa come cru!"


    Vitor Cintra


    Do livro " RELANCES "

    Sexta-feira, Junho 16, 2006

    POENTE




    POENTE


    A tarde finda,
    Num pôr-de-sol
    Que brilha ainda.
    A alma,
    Onde a saudade impera,
    Desespera.
    Presente,
    Um rol
    De marcas e sinais,
    Dos quais,
    A nostalgia
    Se evidencia,
    Se sente.
    Na tarde calma,
    Enquanto o sol se perde
    Num mar, que ferve,
    Avermelhando o céu,
    Aumenta a dor
    Do amor.
    Que se perdeu.



    Vitor Cintra


    do livro " Contrastes "

    Terça-feira, Junho 13, 2006

    SENSUALIDADE





    SENSUALIDADE



    Caiu a noite! E o marulhar das ondas,
    Embala em sonhos um amor distante,
    Que tu desejas, com ardor e ânsia;
    Mas nesse arquejo da paixão, que rondas,
    Nem o negrume da saudade errante
    Encurta o tempo, longo, da distância.


    Sentindo o sonho vir, tornado alento,
    Enfeitiçar-te, num desejo atroz,
    Agigantado nesse marulhar,
    Transpões a noite, pondo o pensamento
    Na fantasia, de avidez feroz,
    Dum outro amante, que te saiba amar.


    Vitor Cintra


    Do livro " Momentos "

    Sábado, Junho 10, 2006

    SEIOS










    SEIOS



    Seios pequenos, discretos,
    Seios rebeldes, erectos,
    Feitos desejos secretos.


    Seios redondos e quentes,
    Seios desnudos, frementes,
    Colos d'amor, exigentes.


    Seios luxúria, vibrantes,
    Seios gulosos, de amantes,
    Dons de paixões escaldantes.


    Seios crescidos, maduros,
    Seios pujantes, seguros,
    Sons de silêncios impuros.


    Seios enormes, caídos,
    Seios vazios erguidos,
    Resto de tempos vividos.



    Vitor Cintra



    Do livro " Momentos "

    Quinta-feira, Junho 08, 2006

    CONTRADITÓRIA



    CONTRADITÓRIO


    São nossas as intenções
    De ter um mundo melhor,
    Mas vós sabeis as razões
    Que o fazem ficar pior.


    É nosso o desejo ardente
    De ver o mundo feliz,
    Mas vosso é o que não sente
    Paixão p'lo que a gente diz.


    São nossas as tradições
    De dar por solidariedade,
    Vós tendes motivações
    Que o fazem, mas por vaidade.


    É nosso o sentir urgente
    Que chegue o fim da pobreza,
    Mas vosso é o que desmente
    Não ter apego à riqueza.


    Vitor Cintra



    Do livro " Vertigem "

    Terça-feira, Junho 06, 2006

    FRÉMITO







    FRÉMITO



    Senti teu corpo abrir-se de desejo
    No sôfrego trocar de longo beijo,
    Fremendo em gesto impúdico de posse,
    Disposto a consumá-la, se assim fosse.


    O meu, dando resposta ao desafio,
    Que o teu, nesse fremir, lhe transmitiu,
    Tomou o teu desejo por promessa
    E uniu-se a esse frémito, com pressa.


    Sem ter em conta os anos decorridos
    P'ra lá, do que se diz, ser mocidade,
    Entrados já, os dois, na meia idade,


    Em louca cavalgado dos sentidos,
    Soltámos as amarras do prazer,
    Deixando tudo o resto acontecer.


    Vitor Cintra



    Do livro " Contrastes "

    Domingo, Junho 04, 2006

    MIMOS





    MIMOS



    Andámos juntos p'lo mundo.
    Corremos atrás dum sonho,
    Fugindo do enfadonho,
    Restrito, vulgar, constante.
    Sorvemos cada segundo
    Da mágica fantasia,
    Nascida no dia a dia
    Da vida de modo errante.
    Do sonho, que perseguimos,
    Colhemos amor e mimos.


    Vitor Cintra



    Do livro " Momentos "

    FIM DE TARDE






    FIM DE TARDE



    Os olhos vaguenado o horizonte
    Vislumbram lá no cume, atrás do monte,
    O sol que se recolhe ao fim do dia.
    Pintado de laranja o arenito
    Desperta, nesse ocaso, como um grito,
    Fantasmas, com um toque a fantasia.


    Saídas das memórias da infância
    ressoam badaladas, à distância,
    Chamando à oração o povo crente;
    Na tarde, que se esvai, melancolia,
    a par de quanto resta de alegria,
    Acalma o coração de toda a gente.

    A noite, que ao cair envolve tudo,
    Abafa, numa sombra, gesto mudo,
    Um tempo que não volta mais atrás;
    Do norte soa agora a voz do vento,
    Baixinho, quase apenas um lamento,
    Com medo de quebrar aquela paz.



    Vitor Cintra

    do Livro " Ao Acaso "

    INDECISÕES





    INDECISÕES


    Quando o amor te convida
    Finges mistérios,
    Segredos
    E medos;
    Se te conquista em seguida,
    Sonhas impérios,
    E ledos
    Enredos;
    Mas, na paixão conseguida,
    Vês adultérios,
    Bruxedos,
    Degredos.



    Vitor Cintra

    do livro " Contrastes"

    Sexta-feira, Junho 02, 2006

    REMORSO





    REMORSO



    Tolhido por certezas indiscretas,
    Julgadas enterradas noutro tempo,
    Ouviu, num doloroso pensamento,
    Palavras sem sentido, mas directas.


    Distantes, mas tão perto da lembrança,
    Causando indisfarcável sofrimento,
    Surgiam, na memória do momento,
    Fantasmas, revividos por herança.


    Na alma, despertando envergonhada,
    Ardiam, como brasas, lentamente,
    Os gritos duma angústia permanente.


    Por vezes, ecoando quase nada,
    Surgiam, só a medo, docemente,
    Sintomas de quem vive alegremente.


    Vitor Cintra


    Do livro "ECOS"

    Quarta-feira, Maio 31, 2006

    PENSO EM TI






    PENSO EM TI



    Penso em ti a toda a hora
    Numa ânsia permanente.
    Muitas vezes noite fora,
    Outras tantas como agora,
    Penso em ti, constantemente.


    Penso em ti, no teu sorriso,
    Que me toca docemente.
    Quantas vezes não preciso
    Sentir só que o meu juizo
    Não se perde de repente.


    Penso em ti porque, encantado,
    Te desejo ardentemente.
    Coração acelerado,
    Imagino-te a meu lado,
    Bem real, na minha mente.



    Vitor Cintra


    Do livro " Momentos "

    Terça-feira, Maio 30, 2006

    DÓI






    DÓI



    Quero-te tanto que dói!
    Mas, nesta dor miudinha,
    Profunda, doce, daninha,
    Há um encanto d'esperança.
    Nela tu és, por lembrança
    Dos tempos da mocidade,
    O mito da f'licidade,
    Que o meu desejo constrói.


    Por cada mulher que vejo.
    Sinto ternura e desejo.
    E todas as que conheço
    Acho bonitas, confesso.
    Mas sinto, porque te quero,
    A dor do meu desespero.


    Aquelas, com quem cruzei,
    Só possuí, nunca usei.
    Não fiz batota com elas,
    Nem fiz promessas balelas,
    Dei, nessas posses, carinho.

    Não quis vivê-las sózinho.


    Mas esta dor, que corrói
    A mente, como a vontade,
    Resulta da intensidade
    Do teu fascínio. Enquanto
    Minha alma cede ao encanto,
    Meu corpo grita bem alto,
    Sentidos em sobressalto:
    Quero-te tanto que dói !


    Vitor Cintra


    Do livro " Contrastes "

    Segunda-feira, Maio 29, 2006

    MÃOS







    MÃOS


    São grandes, pequenas,
    Nervosas, serenas,
    As mãos que se agitam,
    Repousam, meditam.
    Transportam magia,
    Tristeza, alegria,
    Por isso há encanto
    Nas mãos que dão tanto.


    As mãos que nos calam
    Com mimos que embalam,
    Trazendo segredos
    Nas pontas dos dedos,
    São mãos que fascinam,
    Ao toque, dominam,
    E em cada carícia
    Despertam malícia.


    São mãos que tateiam
    E o corpo incendeiam,
    Soltando o desejo
    Gerado num beijo.
    E a cada momento
    Transmitem alento,
    Com gestos singelos,
    Marcantes, mas belos.


    Vitor Cintra


    Do livro " Contrastes "


    Domingo, Maio 28, 2006

    OUTEIRO







    OUTEIRO



    Deste outeiro, onde me isolo,
    Vejo o céu, o mar, o mundo,
    Vivo mágoas sem consolo,
    Sonho abraços, beijos, colo,
    No silêncio mais profundo .


    Leio o tempo - que se escoa -
    Nas estrelas a brilhar.
    Numa ânsia, que magoa,
    Sonho tanta coisa boa,
    Que me causa medo amar.



    Vitor Cintra


    do Livro " Vertigem "

    Quinta-feira, Maio 25, 2006

    AMARGA








    AMARGA



    Amarga é a manhã da despedida,
    Depois que pernoitámos o amor;
    Até porque a minha alma, embevecida,
    Acende-me, no corpo, o teu calor.

    Vulcão de sentimentos, quando a vida
    Apenas me deixava colher dor,
    Soltando fui amarras, de seguida,
    Depois que tu chegaste, sem fragor.

    E os dias feitos horas, à medida
    Que em ti encontrei paz. E o vigor
    Do corpo, natureza reprimida,

    Desperto, sem receios, nem pudor,
    Unindo-se, com ânsia mal contida,
    Ao teu, rendido em êxtase maior.



    Vitor Cintra


    Do livro " VERTIGEM "

    Segunda-feira, Maio 22, 2006

    SENTIMENTOS





    SENTIMENTOS



    Vindos do fundo dos tempos,
    Por caminhos sempre estranhos,
    Chegam-nos os sentimentos
    Que, por vezes, são tamanhos.


    Uns são bons, ás vezes tanto
    Que nos causam mesmo medo;
    Muitos provocam o pranto,
    Outros exigem segredo.


    Sempre que um deles desponta,
    Em momento inesperado,
    Deixa alguém angustiado;

    É que, mesmo sem dar conta,
    Quem por ele é atingido
    Fica até surpreendido.


    Vitor Cintra

    Do livro " ECOS "

    Sábado, Maio 20, 2006

    CONDIMENTOS





    CONDIMENTOS


    Amar é ter da alma uma visão
    Que leva a crer que, sem o ente amado,
    Não há, no mundo inteiro, uma razão
    Capaz de nos levar a qualquer lado.


    Mas crer que não existe, um só, defeito
    No ser que é objecto desse amor,
    Sabendo que não há ninguém perfeito,
    É mera presunção de ter melhor.


    Negar que em todos nós há bem e mal,
    Não é amar de modo natural,
    É ver o amor de forma distorcida.


    Varinha de condão dos sentimentos
    Os erros, no amor, são condimentos
    Que apuram o sabor da própria vida.




    Vitor Cintra

    do livro " Vertigem "

    Quinta-feira, Maio 18, 2006

    FOSTE


    FOSTE


    Tu foste o sonho e o dom,
    A vida que há p'ra viver,
    Ideia de amanhecer,
    Promessa do muito bom.

    Tu foste essa voz, ao longe,
    Que ecoa no oceano,
    Trazendo calor humano
    à vida, quase de monge.


    Tu foste a água da fonte,
    Que fez pensar na promessa,
    Que a vida se recomeça;

    Tu foste o cume do monte
    Aonde, feita a escalada,
    Se encontra a mulher amada.



    Vitor Cintra

    do livro " Vertigem"

    Terça-feira, Maio 16, 2006

    SILÊNCIO




    SILÊNCIO



    Nesta paz, que é meu enlevo,
    Entre céu, pinhais e mar,
    Surge muito do que escrevo
    E a paixão, de que não devo,
    Por pudor, sequer falar.


    Surge, em sonhos, um enredo,
    Que me impede de te amar;
    Surgem mágoas, já sem medo,
    E as memórias dum segredo,
    Que a vergonha faz calar.


    No silêncio a que me entrego,
    Quando a musa me chamar,
    Do passado, que não nego,
    As razões do próprio ego
    Hei-de vir a revelar.




    Vitor Cintra


    Do livro " Vertigem "

    Sábado, Maio 13, 2006

    DEDICAÇÃO












    DEDICAÇÃO


    Pediste que te abrisse o coração,
    Até que desvendasse alguns segredos,
    Mas ao contar-te a vida e seus enredos,
    Deixei-me dominar p’la emoção.


    Falei-te de vivências do passado,
    De mágoas, alegrias, dissabores,
    Falei-te até de causas e valores,
    E vi-me a revivê-los a teu lado.


    E foi ao mergulhar em outras eras,
    Que fiz extravasar os sentimentos,
    Angústia e despertar de sofrimentos;


    Comigo estavas tu, como quiseras,
    Tentando descobrir esse meu mundo,
    Num gesto, sem igual, de amor profundo.




    Vítor Cintra


    do Livro “ Contrastes “

    ÁS VEZES





    ÁS VEZES


    Às vezes choro.
    Às vezes canto.
    Outras namoro
    ‘squecendo o pranto.

    Às vezes sinto,
    Às vezes não.
    Outras desminto
    O coração.

    Às vezes sonho.
    Às vezes faço.
    Outras, suponho,
    Só embaraço.

    Às vezes trago,
    Às vezes levo.
    Outras apago.
    Quando me atrevo.

    Às vezes vejo,
    Ás vezes não,
    Outras desejo
    Não ter razão.

    Às vezes calo,
    Ás vezes digo.
    Outras só falo
    Se for comigo




    Vítor Cintra


    Do livro “ Ao Acaso “

    SENSUALIDADE




    SENSUALIDADE



    Caiu a noite! E o marulhar das ondas,
    Embala em sonhos um amor distante,
    Que tu desejas, com ardor e ânsia;
    Mas nesse arquejo de paixão, que rondas,
    Nem o negrume da saudade errante
    Encurta o tempo, longo, da distância.

    Sentindo o sonho vir, tornado alento,
    Enfeitiçar-te, num desejo atroz,
    Agigantado nesse marulhar,
    Transpões a noite, pondo o pensamento
    Na fantasia, da avidez feroz,
    Dum outro amante, que te saiba amar.




    Vítor Cintra


    do livro “ Momentos “

    EGOÍSMO


    Fotografia de Luis Pinto


    EGOÍSMO




    Sou pedra implantada à beira mar,
    Sofrendo as investidas da maré,
    Sentindo, lentamente, esboroar
    A terra firme que me tem de pé.

    Viver, a vida toda, em solidão,
    Ter gente à volta mas vivendo só,
    É ter, do mundo, toda uma visão
    De tronco morto, que caiu no pó.

    Gritar ao mundo, raiva, desespero,
    Calando mortes, lágrimas e dor,
    É grito tolo, grito de egoísmo;

    É como ter, apenas, o que quero
    Sem ter terra firma de amor
    Que evite a queda certa no abismo.




    Vítor Cintra


    do livro “ Ao Acaso “

    *** ELAS ***




    *** ELAS ***



    São elas que nos fazem ficar tontos
    Dizendo agora " sim " e logo " não ".
    São elas que nos marcam os encontros
    E lançam, por capricho, a confusão.

    São elas que nos fazem, sem respeito,
    Olhinhos, simulando a indiferença.
    São elas que procuram, num trejeito,
    Mostrar-se, quando impõem a presença.


    São elas que provocam, com perícia,
    Com arte, com requebros de malícia,
    Os sonhos, que se fingem nas novelas.

    São elas que se tornam, na essência,
    O doce e amargor duma existência
    Que não se sentiriam longe delas.





    Vitor Cintra


    do livro" Momentos "

    * CRESCER *





    * CRESCER *



    Ontem mesmo fui criança;
    Fiz a ‘scola,
    Joguei bola;
    É bem viva esta lembrança.
    E, num sonho deslumbrante,
    O futuro
    Vi seguro,
    Quis ser homem, um gigante.

    Ao tornar-me adolescente
    Tive esp’rança
    Na mudança;
    Do futuro fiz presente,
    Vi a vida muito cedo;
    Vivi longe,
    Como monge;
    Fiz a guerra e tive medo.

    Só então fiquei adulto;
    Noutro mundo,
    Mais fecundo,
    Fiz-me um homem, não um vulto.
    Vivi sempre a liberdade
    Com respeito,
    P’lo direito.
    Só não tive mocidade.




    Vitor Cintra

    DEPOIS ...





    DEPOIS ...


    Se, cada vez que a fizesse,
    A jura fosse cumprida,
    Talvez jamais sucedesse
    Sentir-se tão deprimida.

    Depois do tempo do sonho,
    Ante a crueza da vida,
    Não há futuro risonho
    P'ra quem viveu iludida.

    Os olhos contam mágoa
    - Às vezes tão rasos de água,
    Que fazem crer que é sentida -

    E a dor, que gera o desgosto,
    _ Muito maior que o suposto -
    P'la inocência perdida.




    Vitor Cintra

    do livro " Relances "

    POENTE





    POENTE


    A tarde finda,
    Num pôr-de-sol
    Que brilha ainda.
    A alma,
    Onde a saudade impera,
    Desespera.
    Presente,
    Um rol
    De marcas e sinais,
    Dos quais
    A nostalgia
    Se evidencia,
    Se sente.
    Na tarde calma,
    Enquanto o sol se perde
    Num mar, que ferve,
    Avermelando o céu,
    Aumenta a dor
    Do amor,
    Que se perdeu.




    Vitor Cintra


    do livro " Contrastes "

    AÇORES


    Pintura a óleo de Mitó Carreiro


    AÇORES



    Nove ilhas de beleza deslumbrante,
    Surgidas do profundo mar imenso,
    Que o mundo conheceu porque o Infante
    Tornou o nevoeiro menos denso.

    Encostas de mosaicos verdejantes
    Elevam-se, rumando ao infinito,
    Hortênsias, feitas sebe, são constantes,
    Tornando o colorido mais bonito.

    Ali, onde gigantes residiram,
    Os cumes das montanhas que explodiram,
    Tornados em lagoas de beleza,

    Relembram aos herdeiros dos atlantes
    Que até já os primeiros navegantes
    Sabiam respeitar a Natureza.




    Vítor Cintra

    do livro " RELANCES "

    RENÚNCIA




    RENÚNCIA



    Num instante, cruzado o olhar,
    Um desejo sublime surgia.
    Eras tu! Era a vida a chegar!
    E contigo um fulgor de alegria.

    O destino, por mero capricho,
    Ao manter-nos distantes, sabia
    Transformar sentimentos em lixo
    E a beleza de amar, sem valia.

    Em momentos difíceis da vida,
    Confundimos amor com carência,
    Descobrindo já tarde, querida,
    O dilema de ter consciência.

    O destino traiu-nos, amor;
    Acenou-nos de longe e fugiu,
    Sem recatos, vergonha, pudor,
    Como um sonho que é belo mas frio.


    Vitor Cintra

    do livro " Momentos"

    Terça-feira, Fevereiro 14, 2006

    ENLEVO







    ENLEVO



    Como sonho sem ter prazo,
    Absoluto, que domina,
    O amor que nos anima
    Despertou por mero acaso.



    Há um mundo de alegria,
    Um porvir feliz, risonho,
    Neste amor feito do sonho,
    Que vivemos cada dia.


    Entre rasgos de paixão
    Cada gesto de carinho
    Embriaga, como vinho.



    Estremece o coração
    Com sorrisos e carícias,
    Que trocamos, com malícia.


    Vitor Cintra


    Do livro " À DISTÂNCIA "