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DESTINO
Eram estas e aquelas,
Umas feias, outras belas,
À conquista deste mundo;
Procurando o prazer delas
Não pensavam nas sequelas,
Nem paravam um segundo.
Ao chamar-lhe preconceito
- Que venceram, por dar jeito
Ao viver de libertinas, -
Desdenharam por despeito,
Dos princípios do respeito,
Que aprenderam em meninas.
Como gatas tendo o cio
Qualquer macho lhes serviu
Nessa saga de prazer;
Mas, do tempo que fugiu,
Restou só o leito frio
E tristeza a condizer.
Já perdidos os encantos,
Sós no mundo, com seus prantos,
Olhar triste, sempre errante,
Lembram homens – foram tantos,
Possuídos pelos cantos, -
Doutro tempo, já distante.Vitor Cintra
Do livro " Alegorias "

(Foto de Marília Gomes)
ORFÃO
Mora na rua deserta,
Sem encontrar porta aberta
Que lhe dispense um carinho;
Há, nessa alma carente,
Temor de toda essa gente
Com quem cruzou o caminho.
Quando morreu sua avó
Ficou mais orfão, mais só,
Dos pais, lembranças nem tem;
Do mundo todo é vizinho,
Mas continua sozinho
Sem ter cuidados de alguém.
Nesse desprezo da sina
Somente a vida lhe ensina
Quanto a " Fortuna " é madrasta;
Pois, apesar de criança,
Deixou ficar toda esp'rança
Na meninice já gasta.Vitor Cintra
Do livro "Alegorias"

Nos campos de trigos,
Papoilas e trevos,
Há ninhos, abrigos,
Abraços, enlevos,
Orgasmos, gemidos,
Carícias, segredos
Na voz dos sentidos,
Frementes e ledos.
Vitor Cintra
Do Livro " PEDAÇOS DO MEU SENTIR "
(À venda nas Livrarias)
FONTE
A fonte da minha aldeia
Murmura, mas docemente.
E tudo quanto a rodeia
Provoca em nós a ideia
Que canta por 'star contente.
Nas noites de lua cheia
Co'a gente lá reunida,
A noite não se receia,
O povo só cavaqueia.
A fonte ganha mais vida.
Se as tardes são de domingo,
A fonte vai murmurando
Ás moças, que vão surgindo.
Rapazes chegam, sorrindo;
Namoros vão despontando.
É certo que tem a fonte
Valor imenso p'ra nós;
Além da água do monte
Transporta do horizonte
Desejos de estarmos sós.
Vitor Cintra
"Alegorias"